Coluna Inversa
Por Larissa rocha
Nós, crias do ‘nórdimins’
Fotos: Davi Nascimento
“Quando vemos artistas de abrangência nacional, como Marina Sena, habitando a cena artística da nossa terra, bate aquela sensação de que o nosso fazer ainda vale a pena...”
Não é segredo para quem nasceu, cresceu e se criou aqui nas bandas das Geraes, que você sempre vai ter que explicar como sua comunidade não está no mapa. Muitas vezes, até figuramos as cartografias físicas ou digitais, com um pontinho singelo ou um nome tímido informando que aquele município existe. Mesmo assim, na maioria das vezes não existimos.
Como assim?!!
Nossa cultura, nossos costumes, nossas tradições e nossas barrancas, não são valorizadas. “Elas não vendem, não atendem o ‘grande público’, não tem abrangência nacional, etc... Quantos artistas ouviram que nosso jeito brejeiro não cabe nos espaços de cultura estabelecidos, não abrange todos os públicos e não tem perfil pro ‘mainstream’.
Outro dia, a ex-BBB Juliette comentou algo semelhante, contando o caso do dia que barraram ela da dublagem da personagem de uma princesa em um determinado projeto. Nem preciso falar que ela é da melhor região desse país (onde, inclusive, muito norte mineiro deseja se anexar. Afinal, a gente nem é considerado Minas Gerais, muito menos sudeste).
E como não amar o salto duplo carpado que o universo dá, quando, de tempos em tempos a ousadia se manifesta na boca e nas criações daquelas que rompem o véu da permissão midiática, inserem o regionalismo nas produções musicais e audiovisuais. E ainda assim, alcançam um público de massa. Marina Sena não é a primeira e graças às deusas, não será a última.
Muitas pessoas, ainda nem sabem quem é essa que estava gravando por aqui, muitos não viram a gata dá um nó certeiro pra prender o barco na beira da ‘ponte velha’ e seguir gravando, se embrenhando pelas tabuas e ferragens desse monumento histórico. Tão negligenciado quanto seu povo.
Obviamente, fui lá, naquele cantinho do espetinho de Juarez tietar um pouco a gata. Afinal, como cunhou minha companheira: “Ela é amiga da nossa amiga. Então, é nossa amiga de segundo grau agora”. Ao cumprimentá-la, agradeci por vir aqui gravar um clipe como este, de um hit em ascensão, na nossa terra, Beautyzeiro (ingleisamento proposital, a quem se perguntar).
Prontamente, com seu sorriso faceiro e sua magia de lua cheia, Marininha de Taiobeiras respondeu: “eu que agradeço por vocês me receberem nesse lugar maravilhoso”. Abracei-a com olhos marejados e vontade de nunca mais soltar, tiramos uma foto e ela seguiu, me deixando ali extasiada com esse encontro singelo e catártico pra mim.
Em mim, Marina reacendeu a chama da esperança. Com sua visita meteórica, ela me lembrou o quanto é possível sonhar e construir a valorização dos espaços histórico e culturais de um município que segue figurando as margens, com muita potência, criatividade, arte e beleza.
Ela nos lembrou que toda vez que ela diz “Gente, eu sou de Taiobeiras”, está movendo um mundo de esperanças pra quem não tá no mapa, da valorização, mas vive no mapa da violência. Pra quem não pode mostrar, socializar ou cantar suas artes e verdades, poque já sufocou toda essa essência pra sobreviver. Tantos que por aqui pingaram, como água mole em pedra dura, e morreram à mingua sem reconhecimento, vendo sua arte perecer.
O que muita gente nem considera, é que existe uma cena artística viva e pulsante por traz das produções superfaturadas e com cunho (e apadrinhamento) político que figuram as mídias das duas cidades... Marina não chegou a Buritizeiro e Pirapora por acaso. Existe um movimento que segue resistindo e cravando nossas marcas barranqueiras no mundo. Pessoas que, aqui não existem, mas expõe seus trabalhos em espaços como o Museu de Arte de São Paulo (MASP), Inhotim, FRIEZE – Feira Multinacional de Artes, CCBB, Palácio das Artes, Sesc São Paulo, Festival Timbre, novelas nacionais e afins...
Um serumaninho comentou na publicação de uma página local, que essa moça tem cara de uma qualquer do cidade jardim ou dos três postes. Sabe-se lá se a criatura queria ofender ou normalizar a presença da artista.
Além dela, que veio de passagem, temos os nossos, que se esvaíram daqui para, ironicamente, não perder a vida nem a arte das barrancas. Gente arteira e renomada no mundo lá fora, furando a bolha das cafonices da pseudo elite da nossa região, que estão sempre em destaque e nos matando de vergonha alheia.
A gravação do clipe de Lua Cheia e de outras produções potentes que estão sendo realizadas nas barrancas daqui e de lá (Buritizeiro, Pirapora, São Romão, Várzea da Palma, etc.), seguem como farol, que ilumina a arte do cerrado nortemineiro e nos projeta pro mundo.
Axé, Marina Sena. Cum deus e inté.
Larissa Rocha é cria de Buritizeiro/MG – um município gigante em território e em belezas naturais. Comunicadora apaixonada pelas histórias que nascem das barrancas do São Francisco, é destemida e curiosa. Atua na criação de projetos sociais e culturais, produção de conteúdo e gestão de redes sociais. Tem experiência em jornalismo impresso, comunicação institucional e marketing de conteúdo, sempre buscando unir afeto, estratégia e criatividade para fortalecer comunidades e valorizar as potências do Norte de Minas.

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